sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Ponto Final


Passo, hoje, pra me despedir. Frequentei esse espaço por quase cinco anos e, olhando pra trás, vi quanta coisa me aconteceu: tanta coisa marcada no que escrevi. A escrita, pra mim, sempre serviu pra isso. Sempre me vesti das palavras como forma de exprimir o momento, o sentimento. Consigo enxergar, com a agudeza crítica sempre ferina para comigo mesmo, meus incomensuráveis erros, tanto na forma quanto no conteúdo dos textos. Se há alguma qualidade a se ressaltar por aqui, creio que deva ficar a cargo de quem a encontrar, porque eu próprio, e sem falsa modéstia, tenho olho mais apurado para meus erros do que para meus possíveis acertos.

Hoje, sinto que, mais do que antes, tenho muito pouco a dizer. Como aqueles relacionamentos amorosos em que o rompimento se dá inesperadamente, pra que as mágoas inevitáveis que já se vislumbram não se tornem vívidas, encerro as atividades do Bodegário. Não pretendo, por ora, desativar o domínio ou coisa do tipo: no fim das contas, o que já foi escrito e, principalmente, o que foi vivido não pode ser apagado.

Aos que acompanharam por aqui; aos que, de uma forma ou de outra, chegaram a essa Bodega (ou Relicário) e, em especial, àqueles que se identificaram com quaisquer dos escritos, meus agradecimentos mais sinceros.




Aquele abraço!
 

Júlio.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A madrugada chegou, em silêncio, lembrando você


Hoje o dia teve seu cheiro.
Há quanto tempo não sentia tão perto,
tão perto, o olor da sua distância.
A paz, em dias de lembranças assim, insidiosas,
não se atreve nem a nos espreitar.
Ninguém nos espera, ninguém nos acena, ninguém nos conhece.
Deixamos de ser os que pela avenida descem,
braços dados, a distribuir sorrisos,
a cumprimentar os estranhos,
a ignorar o trânsito,
a desdenhar dos casais que não comungam do amor, de um amor como o que um dia nos pertenceu.

Hoje o dia teve seu gosto.
Por entre as vitrines das lojas
eu escutava sua risada abafada contra o meu peito.
A luz, as vozes, os passos ao nosso lado
e a sua risada abafada contra o meu peito,
quem sabe um refúgio para um sofrimento que eu desconhecia.
Eu pouco soube de você.
Depois disso, nossas horas passaram a ser contadas.
Hora marcada, hora fugidia:
"Já é hora?!"
E um temor seco, um medo insignificante, tão insignificante
que não vale, agora, nem o desprezo.

Hoje o dia teve sua cara,
sua alegria, suas manias, sua vontade de ser ouvida
e por mais que eu queira, não me é possível ser apenas indiferente.



A madrugada chegou, em silêncio, lembrando você.


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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Todas as Vozes


O que não deve ser dito em voz alta,
o que não deve ser dito.
As palavras impronunciáveis,
as preces incorruptíveis,
os lamentos ininteligíveis,
as verdades pela metade.
Que sejam esmagadas, que sejam destituídas de todo cerne, de todo motivo que as avive.
Eu não falo de silêncios,
eu não clamo a simples ausência,
o vazio de sons de agora até o princípio.
Eu não falo de silêncios.
Eu falo do que não pode ser ouvido,
do que não pode ser dito.
O oco, o mouco, o imperceptível.
O que não está na sintaxe, na ortografia, nos objetos, nos sinônimos, nos oximoros, nas antíteses, na língua de nossos antepassados.
 

O que não pode ser dito não será dito.

Todas as vozes que, aflitas, se escondem por detrás dos dentes.
Todas as vozes presas, engolfadas pela saliva rançosa do desprezo.
Todas as vozes que, sonhadas, já não servem mais.
Todas as vozes abandonadas.
Todas as vozes que nos chamam à razão: inúteis.
Todas as vozes que se calam
enquanto não me calo, enquanto insisto, enquanto resisto.

Meus olhos não querem as palavras,
meus ouvidos não querem os sentidos:
é pelas mãos que procuro a calma.

O que não deve dizer nada, o que não tem nada a dizer.

A voz do que foi esquecido por ora cala:

são elas todas as vozes da Alma.

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Hálito Noturno

Tuas roupas espalhadas pelo chão,
quase que um retrato em preto e branco,
enquanto pela janela sopra o gélido hálito noturno
por mim tão conhecido.
Nos teus cabelos em desalinho,
sob as sombras fátuas que desenham teu corpo,
eu passeio a ponta dos dedos,
o braile dos ignaros,
até que você diz, meio adormecida,
meio desperta: "Fica".
Beijo nos teus ombros desculpas pelo "não" que não direi,
uma carícia de despedida,
finitos instantes.
Em algum momento não muito distante, sei bem,
o abandono será a derradeira lembrança
do que um dia foi grito, arrepio e gozo.
Deixo tua casa, tua cama, a porta bate num baque seco atrás de mim,
e vagueio pela rua logo que a manhã irrompe.
Já deixei outros quartos, outros lençóis,
outras, nunca iguais a ti,
não por não querer ficar,
mas por desconhecer o que une a noite tão cheia de vozes e desejos intensos
ao dia sempre tão cheio de carícias frívolas e mornos diálogos desinteressados.
Talvez porque eu seja só carne,
carne entorpecida que carrega a sina de ser só
e desperte apenas a intervalos furtivos
ao sentir, da madrugada que chega, seu hálito noturno.
Aquele que não sabe das gramáticas um quê de nada
e acaba por colocar precoces pontos finais
em cada caminho anunciado.


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domingo, 31 de agosto de 2014

Catarse


A minha vida toda é uma citação.
O meu pensamento próprio é todo ele um painel de imagens desencontradas, de fragmentos que não se encaixam.
A minha explicação não se encontra no todo, não se encontra nas partes.
A minha explicação não se encontra nos meus atos, não se encontra no que digo, nem sequer se vislumbra nos meus entrementes:
- Não se encontra.
A minha vindicação não está nos meus acertos: ela absolve meus erros.
Eu-todo não sou e ainda assim, sou.
A minha vida-pouca é toda uma citação:
A minha vida-tola é toda ilusão.


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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Espia!

Espia,
logo ela chega.
Espera,
que ela não tarda.
Não se preocupe,
ela vem.
Não dará telefonema,
não mandará notícias, telegrama, email
marcando data e hora.
Simplesmente dirá "bom dia", dia desses,
abrindo braços e sorrisos
para abraços e beijos de saudade.

Espia:
felicidade é notícia boa
que assoma na janela
sem avisar,
felicidade é coisa à toa,
cheiro de canela
no bolo de fubá.
Escuta: felicidade vem e voa,
é feito vela
prestes a se apagar.

Expia:
e se, por um instante, você percebesse que o mundo todo não é você?
E se, repentinamente, o mundo todo deixasse de ser você?

Expia!
Mesmo que arda, carda o cobertor
da vida inteira, expia!
Sabe Deus se vale a pena
escorrer a pena a dizer
que é bela a moça que acena
por detrás dos óculos,
no ecrã, no faz de conta da TV...

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terça-feira, 20 de maio de 2014

Das Voltas Do (Quase) Amor


Pesa.
E quanto peso!
Já não vale a reza,
o santo terço.
Quando é presa a peça,
quando aperta o peito,
coração disfarça,
mas não tem jeito:
cadê cor, cadê graça?
Já fim? Não aceito!
Seu quase mar, assim, deságua em nada.
Sou quase rio, pobre de mim, sem o seu leito.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Casual

No breu do quarto, duas bocas se procuram:
perdidas, esquivas, hão de encontrar-se
até o fim da noite.
O escuro há de permanecer,
o assombro de (des)conhecerem-se
não apaga o desejo.
Em instantes, exaustos,
estarão dispersos,
sós.
Sós, lado a lado,
mais desconhecidos do que nunca.
Compartilhado o gozo,
talvez outro gole,
outro copo,
e no álcool insípido da madrugada
(em que se depositou toda a raiva,
toda a desesperança,
em que a entrega se consumou,
corpo arfante à procura do sossego,
da paz que não virá, não virá,
não é a primeira vez que isso ocorre),
no álcool despir-se-á a memória.
Amanhã, a manhã morna de sempre
pela frincha da porta.
Nua, ela, nu, ele,
mais irreconhecíveis um ao outro do que nunca.
Mas não há do que se arrepender,
por que se culpar?
Pela frincha da porta ver-se-á
que o Amor, pedra angular da vida,
figura constante e inexpugnável de todos os dias,
imaginado distante daquela cama,
a quilômetros daquele impenetrável breu,
também pode ser, por que não,
Casual.


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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Eu Nunca Disse "Eu Te Amo"

"Afinal, o que eu posso fazer
Se não me lembro mais o que era antes
De te conhecer?"

Paulinho Moska

Eu nunca disse "eu te amo".
E você me olhava com aqueles olhos arregalados,
com aquela fome de não sei o quê.
"Eu não vou te seguir", você dizia,
e eu nunca soube o que isso queria dizer.
Talvez você soubesse que o caminho ia dar em nada,
em rua sem saída sem placa de aviso sem mão que nos ampare.
É, acho que era isso: você sempre soube.
E eu?
Eu fui dar com a cara na porta,
na porta da sua casa,
enquanto você me esperava
com o rosto desfeito e com as mãos em brasa
por já pressentir o fim de tudo.
Fingi que não acontecia nada,
que a gente era gente que não se prestava a esse tipo de coisa,
mas o que eu não entendi logo de cara
era que você sabia de tudo.
Antes mesmo do início, chego a suspeitar.
Aí, naquela hora morta, naquele tédio que era quase morte,
naquela tarde que se demorava a morrer pra noite,
eu ouvi você pela última vez:
"Você nunca disse 'eu te amo'".
(Mudo.)
(Mudo.)
(Mudo.)
Num segundo eu pensei que fosse brincadeira,
piada sem graça que a gente ri de nervoso,
pra não dizer besteira.
Então não é que eu perdi a cabeça, que eu gritei contigo,
pedi pra parar de conversa fiada,
que eu não 'tava afim de "me servir aos seus caprichos"?
"Cadê meu senso de ridículo?", logo depois eu pensei.
Já era tarde.
Você, calada, me acenou e, ainda sem dizer palavra,
subiu nosso último lance de escadas.
Eu culpei você, é claro, menina que não sabe o que quer,
que se deixa levar por qualquer notícia de tv,
por qualquer romance barato que se compra no supermercado.
Eu culpei você, agora no escuro, na noite insone,
nos olhos pregados no teto.
Foi então que eu me dei conta
e, na matemática inequívoca das lembranças,
eu fiz as contas de quantas vezes eu te ouvi dizer "eu te amo":
você, menina,
não, menina não,
mulher: mulher que sabe o que quer, que antevê o futuro,
que sempre soube de tudo.
Tarde.
"Eu não vou te seguir", você dizia,
e hoje eu sei por quê.
Tudo isso porque eu nunca disse "eu te amo".
Nem pra você nem pra ninguém.


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domingo, 23 de junho de 2013

Esperançar

Alguém disse de lá:
"Até quando?"
e o eco veio me lembrando
que a vida passa a milhão
pela avenida dos olhos:
na retina fica o que a gente foi amando
e o tanto que deixou de amar.
O que doeu, virou pranto,
hoje é cócega, quase carícia, no lembrar.
Bobo da gente que se roeu de noite
bobo da gente que perdeu o sono (foi encontrar de cansaço)
por tamanha besteira
que nunca, nunca foi mais do que laço
a prender as ideias no ar
suspenso do quarto abafado
era só palavra-palavra-palavra
martelo no aço
barulho esparso
medida desmesurada
pelo inconsciente metido à besta
louco por nos desnortear.
Desnorteio que acompanha, aponta pro lado
que dá na veneta:
Eu não quero nem saber de olhar pro céu
já me perdi procurando o último planeta
a encerrar a desesperança do que virá.
Virá, nascida prematura, pequena estrela
de longe, pra onde a Terra acaba
lá onde não resta mais nada
além de esperar,
Esperançar.

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sábado, 16 de março de 2013

Via Crucis

Eu fiz seu gosto:
um sorriso estampado no rosto
enquanto assistia à via crucis -
"Olha lá, é Jesus!" -
e no seu peito, a cruz:
seu nome era só o que eu via.

Eu desbastava as contas do vigário
ouvia a música, atento aos seus gestos
as mãos suavam no escapulário
alteando a voz a cada protesto -
"Presta atenção no que o padre vai dizer" -
e eu só tinha olhos pro seu nome.

Eu murmurava uma reza desconhecida
por você ensinada, toda agradecida
cheia de orgulho de menina crescida
a baixar os olhos ante a imagem -
"É tão bonita que parece miragem..." -
eu aquiescia e dizia mais uma vez seu nome.

Eu esperava o fim da procissão
aflito por saber da despedida
rendidos braços à oração
da felicidade compartida -
"Vá lá pedir sua bênção" -
e seu nome a redimir os meus pecados.

Eu quis seu gosto:
seu beijo marcando meu rosto
após a infinita via crucis -
"Lá se foi Jesus..." -
e nos seus lábios, fez-se jus:
repeti neles seu nome.


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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um pouco. Pó. E só.

Por que é que a gente continua assim?
Não seria mais fácil um abraço
Uma palavra doce
Um risco, um traço
De amizade antiga, que fosse?
Mas não esse ignorar triste
Esse olhar que me socorre e me foge
Esse orgulho que, por que diabos, insiste
Em nos cumprimentar de longe
Enquanto, eu sei, a gente sabe,
O que queria era estar ao lado.
E aquela lágrima que escorreu
Eu não pude amparar. Eu queria.
Como eu queria!
Você pode até achar que não
Que toda essa nossa confusão
Armou-se por conta, não nos culpemos mais,
Do cosmos, das partículas indizíveis e invisíveis
Do universo, estrangeiro a qualquer entendimento,
Que desencontrou o meu querer
Do seu, o nosso querer.
Nosso.
Não, eu não vou reclamar de novo
Não vou chamar de tolo
Aquele poema que lhe dediquei de tímido:
Sim, só um carinho,
Um pouquinho, e pó.
Verdade, restou o pó
E o pouco
E o nó
Na garganta.
Pra facilitar as coisas,
É melhor que fique assim:
A gente continua indo
Indo e rindo
Como se tivesse junto,
Como se não fosse mudo
O grito que a gente grita todo dia
Toda aquela alegria
Que podia ter sido
Não fosse o passado perdido
E o futuro,
Um ruído.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ObsoLetra

 . .

Os olhos postados nas mãos
quedavam absortos:
as linhas curvas

os meios-tons
as marcas provocadas pelas intempéries:
tudo se misturava 

e se confundia
e se amalgamava
e se difundia
e se desesperava
no concurso das coisas

na decrepitude do minuto
do milésimo de segundo
ultrapassado pela velocidade
voracidade
da Vida-Instante impiedosa, impaciente:
Ansiolítica.


. .
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Azulejo

..

Eram meus olhos nos seus: eles, seus olhos, calmos e claros, azuis e lejos, os meus inquietos, temerosos. E, fitando-nos, falamos, maravilhados por nossas presenças naquele quarto, naquele instante, quase como se quiséssemos estreitar no peito algum desejo insano que, por ventura, nos permitisse uma sobrevida até a próxima semana, quem sabe, ou mês, que quedaria eterno nas lembranças fugazes de ontem, anteontem, de um ano atrás... como se escutássemos uma música lenta, baixando sobre nossas cabeças e ouvidos ávidos por torpores desconhecidos até então e, imponderadamente, fosse-nos permitido avançar pela pista de dança que luzia apenas para nós dois... como se sonhássemos, eu, em vigília, com seus olhos azuis, lejos, você com suas façanhas, seus projetos concretos, abstraída pelo futuro insondável, e nesse sonho entrelaçássemos as mãos, inocentes, distantes de quaisquer vertigens do corpo. Naquele mesmo instante fugidio, como que acordando de um sonho em vigília, percebi que pertenciam somente a mim as imagens daquele quarto, as esperanças daquela noite. E como lutasse e não conseguisse detê-la por mais um instante, desses infinitos, vi esfumar-se entre meus braços, no abraço, seus olhos azuis: antes, agora e cada vez mais lejos.

..

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Incompreender-se



Façamos de conta que, da simples ideia de ser,
subentenda-se a totalidade das coisas
que não podemos compreender.
Nessa falsa compreensão de tudo,
na vã tentativa de ocultarem-se as disparidades,
discrasias e imperfeições próprias e alheias,
anunciemos aos ventos, norte e sul,
o que buscamos e falhamos representar
com débeis palavras e escusados gestos.

Esforço néscio seria recompor-se,
desculpar-se, alterar-se a fim de transformar-se num certo um
que não se pode ser jamais,
sendo ele outro que não a si próprio.
E de mudar, de tornar-se algo que não a si mesmo,
sentir o medo, a raiva, a tristeza, a solidão
de não achar-se,
de, cada vez mais,
incompreender-se.

Ou, não saberemos nunca se é possível,
o "incompreender-se",
seja lá o que isso queira dizer realmente,
incompreender o mundo, a vida,
a morte, talvez esta mais facilmente,
faça emergir, enfim - jeito estranho de se pensar -,
puro e simples,
alinhavado pela totalidade das coisas,
o mito da compreensão, exato, inequívoco,
tal qual um deus que vemos e não ousamos tocar.

Ah, e quando isso acontecer,
façamos de conta de que nada sabíamos,
de que nos maravilhamos com o novo,
de que nos espantamos com o dúbio
e que as dúvidas, oh! quantas dúvidas...
estas nunca serão sanadas
mesmo apresentadas todas as respostas.
 
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sábado, 25 de agosto de 2012

Sujeito Indefinido em Primeira Pessoa

Se a névoa se esfuma,
que, outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
despetalar a lua!!
Federico García Lorca

Inexiste, em algum ponto do globo.
É todo ausência, todo vazio.
É oposto, posto que não tem lado.
Finge-se de morto, morte que assoma da janela.
Está, para o tempo, parado.
Móvel torpe do sistema solar.
Procura com as mãos.
Não vê.
Não sente. Sonha.

Desespera, vagamente. Vagamundo.
"Bom dia". Toda polidez do mundo.
Atado ao tratado das boas maneiras, sorri.
É, no magno palácio, palhaço.
Que abrace, que beije, não se contenta.
Que ame, que deseje, não experimenta.
Escreve, escreve, escreve.
Catárticos caóticos
casos caçados.
À luz da divina providência, despede.

Desdiz, desditoso.
Fala: mais fala, pouco escuta. Cicuta.
A víscera que substitui a vírgula.
A raiva que concentra a rima.
Que rima? Não há.
É, na magna carta, a cacofonia.
Vira caco de vidro. Despedaçado.
"Se minhas mãos pudessem despetalar..."
Mas não, não há!
Que fazer, então?

Descobrir, desdobrar, desnudar?
Insistir, instar, insensível ao padecimento?
Não, não cabe na palma, sobeja alma.
Faz o quê, por fim, se inexiste?
 

Desiste.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Abjuração

Nossas vozes se calaram repentinamente. 
Juntos, perdemos a fala, deixamos de lado o que, achávamos, era prescindível. 
Não era. 
Talvez fosse o que tínhamos de melhor.
E foi. 

Foi e não quer se repetir. 
Aprendemos a ser fortes. 
Isso, sabíamos, nos seria útil. 
Mas ter razão de nada nos serviria. 
Ter razão seria demasiado cruel. 
Para quem quer que seja, para quem quer que sirva de migalha. 
Abandonados, pediremos trocados nos sinais, 
faremos malabares com o que sobrou do sorriso, 
das lágrimas e dos futuros mais-que-perfeitos. 
Nos equilibraremos firmes sobre o tênue fio que nos separa do abismo, 
de olhos postos no indecifrável, 
ainda que a vertigem nos seduza.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sinais?!

E fim.
Exclamação?
Uma interrogação, repara bem!
Nada disso: nem um nem outro.
Era ponto final e não continuaria mais e acabaria ali e se reduziria a pó e se desmancharia feito desenho de criança na areia e seria matéria pro vento e seria dejeto abjeto objeto indireto ou direto e indecifrável sujeito na corrente das coisas que não tem mais nome valor ou porquê.
(...)
Mas o que é, meu caro, senão a vida um emparelhar de vírgulas, conectivos, conjuntivos esperando por algum sobressalto exclamativo interrogativo contumaz.
"Devias atentar para os sinais. Eles tendem a não se repetir."
E quantas e tantas vezes eu me vi a atrelar gente ao ponto,
à ortografia correta dos vezos e versos alexandrinos perfeitos, sem dúvida...
Reticentemente, não estaria eu sendo mordaz...
"Atenta para os sinais, atenta para os sinais."
Veja, ainda não acabou meu estoque de descalabros, candelabros
acesos.
Combinemos o seguinte: enquanto houver quem ouça, façamos troça.
Enquanto houver louça, engulamos, palavra por palavra, a farsa.

-Emparelho vírgulas de que me vale a vida senão por pôr vírgula onde me der na veneta esquecer a gramática de nada me adianta senão para para o minuto em que chegaremos logo. 

E começo.

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

[auto]Análise

*Este post é algo diferente do que tenho feito por aqui. Tão mais natural que, vez em quando, as coisas saiam do comum.

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou...
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos, XV


Especificamente, não há nada que se possa fazer no momento. As indas e vindas são naturais, são perfeitamente compreensíveis. Falamos das vicissitudes humanas e, contra essas, a filosofia oriental tem-nos banhado de conselhos e técnicas deveras eficazes, um tanto quanto árduas, que juramos de pé junto, e o ocidente se enche de superstições supérfluas, acatar com boa-fé. Certamente, sabemos pouco sobre nós mesmos. Em se tratando de sentimentos, aprendemos desde à tenra infância que o que nos é caro não sai barato, ou seja, sem desapontamentos, sem ofensas, sem brigas: permaneça próximo. Do contrário, não sei mais quem é você, creio não conhecê-lo mais, como você mudou! Decidimos quem são os que ficam, os que entram, quem sai ou quem nem devia ter entrado e desdizemos as palavras sinceras de ontem, as que, lindamente, escorreram pelos olhos em lágrimas de extrema comoção. "O que eu disse ontem não conta!" e assim nos enclausuramos uma vez mais na intrincada bolha das relações humanas. Esquecemos da matéria de que somos feitos, essa inconstante e disforme matéria que se molda a cada novo ato, a cada nova deliberada ou impensada atitude sobre nós dirigida. Nasceram mágoas e névoas passaram a fazer parte do seu caráter, meu caro! E a confiança é cristal que, partido, nunca mais reconstituir-se-á. Quão frágeis somos nós,não?! Soubéssemos da metade... Quanta palavra amarga tem se guardado, quanto gesto brusco tem se segurado não se sabe por que vias! E nós os primeiros a condenar um arroubo, uma reação instintiva que por instantes fugiu do controle. Respondemos às imprecações com facilidade (e com que prazer!), mas o elogio é tímido, envergonhado, ensimesmado. A palavra rude toma corpo, adquire dimensões gigantescas. Por sua vez, a afetuosa é estranha, carece de substância, de verdade. Predispomo-nos a receber a ofensa, enquanto o agrado sempre soa à bajulação, à caridade interessada. De fato, sabemos pouco, quase nada, de nós mesmos - menos ainda do que, ou de quem, nos rodeia.

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sábado, 12 de maio de 2012

Bendita Seja Tua Palavra


"Lembra-te bem, amigo, de que um gesto repetido à exaustão pode tornar-se natural; um bem feito, ainda que contrariado, ainda que careça de substância, pode vir a tornar-se um hábito; mas uma mentira, e já deves ter ouvido isto antes, mesmo que contada mil vezes nunca se tornará verdade. E lembra-te também: uma palavra, seja ela de conforto, de troça ou simplesmente proferida contra o silêncio implacável será sempre tua: tua filha, tua imagem, tua semente. Portanto, não faça com que se recordem de ti como aquele que se espalhou por aí sem render à terra um fruto que fosse, sem dizer, num nascer em flor, a um jardim sequer: 'Faça-se belo'."
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